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ComportamentoMúsica

Por que os millenials estão desistindo das baladas?

by Karla Wunsch

O termo discoteca foi inventado no final dos anos 40, pelo cineasta Roger Vadim. Na verdade era discothèque, já que tudo se popularizou na França. Essas festas eram alternativa para quem queria dançar, mas não tinha dinheiro para ir a shows ao vivo.

Assim era uma balada nos anos 40, música ao vivo, longos e ternos.
Assim era uma balada nos anos 40, música ao vivo, longos e ternos.

Hoje, o público que sai de casa pra dançar diminuiu. Os millennials, nascidos entre 1983 e 2002, parecem não estar tão interessados nas casas noturnas e os velhos formatos de diversão

Segundo um estudo do Nightlife Association, na última década os Estados Unidos tiveram 10 mil bares e casas noturnas a menos. Na Inglaterra, quase metade desapareceu, incluindo casas famosas. Em São Paulo a diminuição foi de 15% de 2012 a 2015. Mesmo se você quiser culpar a crise econômica mundial, uma coisa é verdade necessidade de se divertir nunca some. Então porque as casas noturnas não estão mais tão em alta?

A primeira resposta pode vir do seu auge.

Antes de ser meme, John Travolta marcou o auge do Disco nos anos 1970, com suas danças na telas de cinema. Também nessa época, o famoso Clube Studio 54 bombava em Nova Iorque. Lá, figuras como Chuck Berry, Grace Jones, Diana Ross e Andy Warhol iam se divertir – o que aparentemente significava: dançar, mas também usar muita droga. Cocaína estava no topo da lista.

A volta do cavalos na pista, agora em forma de máscara. Registro de 2017. @ Kitschnet, RJ
Bianca Jagger entrou na pista cavalgando. Cavalo Branco também é um apelido conhecido para cocaína.

Pulando alguns anos de pistas cheias com novas trilhas, hoje especula-se o declínio dessa época.

Como nossos pais, jamais!

O uso de drogas mudou. Cocaína e maconha, estão presentes há alguns anos, são menos usadas hoje do que nas duas gerações anteriores (Baby Boomers e Geração X), muitos indicam uma reação dos filhos ao ver pais enfrentando problemas com drogas. Em troca, o que cresceu foi o uso de remédios analgésicos, segundo drugabuse.com. (Lembrando que o álcool não está na lista deste estudo americano, mas está presente entre mais de 40% dos jovens que vão pra balada em São Paulo e 18% no Brasil. Além disso, não se pode esquecer das drogas sintéticas.)

A volta do cavalos na pista, agora em forma de máscara. Registro de 2017. @ Kitschnet, RJ

Com tanto remédio, pode ser que estejamos mais apáticos ou menos sociáveis, inclusive existe uma possível diminuição de interesse por sexo. E, para os que se interessam não é preciso deixar o sofá pra tentar algo, o Tinder e o Happen estão aí pra ver as opções.

Nos meus ouvidos quem manda sou eu

Os avanços dos algorítimos nos ajudam cada vez mais a receber o que queremos na hora em que queremos. Os posts no Facebook, as playlists certas no Superplayer. E isso não é novo: antes a gente gravava em fitas K7 para poder ouvir o que queríamos, agora não tem mais espera. É mais fácil. Mas no universo fora do digital, a experiência ainda não é a mesma. Por isso, nem sempre se submeter a um DJ e seus gostos pode ser a ideia mais atraente, até porque existem outras opções, bem no celular ou computador.

Egotrip x Socialização

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Foto da foto na festa: Selfie Block Party

Esse costume de receber só o que se gosta acaba deixando a gente mais voltado para nós mesmos e nossos grupos. Selfies e compartilhamento do dia a dia podem criar espectadores com Medo de Perder Algo (FOMO), um sentimento que pode paralisar: é como se na dúvida do que escolher fazer, acabar não fazendo nada. Um dado deste ano mostra que 5,8% da população sofre de depressão no Brasil e estima-se que 9,3% têm transtornos ligados à ansiedade, colocando o país na quinta posição mundial.

Estou finalizando, calminha aí.

As hipóteses são muitas e vão além do que foi citado aqui. O fator medo, por exemplo, também está presente. Além do perigo na entrada ou saída tem o que pode acontecer dentro da própria festa. Por exemplo, em São Paulo, 11.5% alegam ter sofrido algum tipo de agressão sexual, de acordo com estudo. E, média, uma vez por semana pessoas procuraram ou foram encaminhadas à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) para registrar crime de homofobia. “Festinha em casa com os amigos e a playlist que escolhemos parece mais de boas.” Atire a primeira pedra quem nunca pensou isso.

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Ainda que tenha inúmeros fãs, o formato balada pode não fazer mais taaanto sentido com as mudanças comportamentais. O que não significa seu fim. Em coexistência com essa baixa, vem a força os mega festivais (a volta do ao vivo como lá no começo do texto?): Lollapalloza, Coachella e mais. O importante é saber que não é porque as coisas são diferentes é que são piores. A consciência com as drogas está mais presente, a possibilidade de ouvir o que você quiser em qualquer hora do dia são ganhos dessa geração. Já a vontade de ser feliz e se divertir com música é algo presente independente da década.

Mais informações:

 

http://www.monitoringthefuture.org/pressreleases/15drugpr_complete.pdf

Karla Wunsch

Karla Wunsch

Comunicadora formada pela PUCRS. Trabalha como produtora de conteúdo desde 2012. Fala sobre tudo, especialmente música. Por esse amor também virou DJ e venderia móveis para ir a shows.